Meio&Mensagem

Além da beleza eurocêntrica

Taís Araujo comenta o papel da indústria no desenvolvimento de produtos e conteúdo que representem toda a diversidade da população brasileira

Por Roseani Rocha

A atriz Taís Araujo apresentou o programa Superbonita, do GNT, de 2003 a 2009, e, neste mês de setembro, volta à posição. Ela substitui a atriz Camila Pitanga, que esteve à frente da atração por duas temporadas. Além disso, Taís é garota-propaganda da L’Oréal há dez anos e foi a primeira estrela publicitária negra de Quem disse, Berenice?, do Grupo Boticário. Taís comenta o papel da indústria no desenvolvimento de produtos e conteúdo que representem toda a diversidade da população brasileira.

Meio & Mensagem — De modo geral, você credita que a indústria de skincare brasileira atende à diversidade étnica do País?
Taís Araujo — Acho que estamos num caminho, sim, de representar a diversidade étnica do País. É claro que posso falar por mim, a mulher negra. Nós, negros, temos uma paleta de cores muito diversa. Existem negros de muitas tonalidades de pele e acho que a indústria ainda não atende a todas essas pessoas, porque a demanda é grande. Mas está no caminho. Sei de marcas que estão fazendo pesquisa de coloração de peles, Brasil adentro, para que possam atender a maior quantidade possível de brasileiros. Já é um sinal de que os consumidores estão sendo respeitados. Quando você fala isso de atendimento, tem muito a ver, óbvio, com diversidade, responsabilidade, mas tem muito a ver também com o respeito ao consumidor, de ele se sentir representado pelas marcas, se enxergar ali, e também respeito e cuidado: “Estamos olhando para você”. Uma marca que se compromete e se preocupa com seu consumidor diz: “Você é importante pra gente”.

M&M — Proteção solar era uma subcategoria em que havia queixas da população negra, pois os produtos eram cremes brancos, que criavam uma “máscara” no rosto. Já existem opções? Em que outras categorias ainda há espaço para melhorar?
Taís —Tudo está evoluindo e este é um bom sinal. Proteção solar, antigamente, a gente ficava mesmo com a cara branca, com uma máscara no rosto. Hoje em dia, não. Já tem filtros que são transparentes, ou seja, se adaptam a todos os tipos de pele, mas ainda sinto falta nos filtros com coloração… Esses ainda estão limitados, sim. Eles chamam pele “clara, média, escura”, aí ferrou, né. Nunca vai atender e o escuro nunca é escuro suficiente. Às vezes, não dá nem para a minha pele, que não é tão escura. Então, se tratando de Brasil, acho que as marcas vão ter de olhar com mais cuidado. Maquiagem também é uma questão. Somos muitas tonalidades de pele e muita gente não consegue ser atendida. Bases e corretivos precisam ser olhados com mais cuidado.

Taís Araujo apresentou o programa Superbonita, do GNT, de 2003 a 2009, e, neste mês de setembro, volta à posição

M&M — Como você, que está voltando ao Superbonita, avalia o papel da mídia nos debates sobre beleza? Acha que está mudando para algo mais inclusivo ou segue contraditório, entre entendimento das diferenças e imposição de padrões?
Taís —Poxa, esse é um caminho tão bonito de ser observado. Eu apresentei o Superbonita de 2003 a 2009 e estou voltando a apresentar agora. É outro programa! São outras pautas. Inclusive, a gente fala sobre como nessa questão a sociedade brasileira evoluiu bem. Mas também acho que é um caminho, não chegamos a um lugar em que todas as belezas sejam reconhecidas como beleza e atendidas enquanto beleza. Acho que não. Estamos no caminho. Tem uma questão de entendimento da sociedade para além da beleza eurocentrada. Isso não depende, definitivamente, das marcas. Tem uma questão aí da sociedade civil importante nesse entendimento, que a internet ajuda muito. As meninas do Corpo Positivo, por exemplo, fazem isso muitíssimo bem. Do entendimento de que “a gente é bonita com o nosso corpo, somos saudáveis”. Acho um trabalho muito bonito que elas fazem. E o que é mais legal de tudo é que antes, como na moda, a moda ditava o que o povo ia usar, agora a rua dita o que o povo vai usar. A mesma coisa acontece com a publicidade. Não é a publicidade que está ditando mais nada, é a sociedade. E a publicidade está acompanhando e atendendo a essa demanda que vem da sociedade. Isso eu acho muito bonito!

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