Meio&Mensagem

Vacina contra fake news

Jornalismo de saúde cresce na pandemia com a credibilidade de veículos e marcas, amparado por equipes de especialistas

Salvador Strano

O isolamento social ampliou o consumo de mídia no Brasil. Aliado a esse movimento, a insegurança causada pelo medo constante de se infectar com o novo coronavírus aumentou a busca por informações jornalísticas sobre ciência e saúde, fazendo com que os principais veículos de imprensa do País observassem recordes de audiência no período, no qual a condução política da crise do governo Jair Bolsonaro também desempenhou papel relevante.

Segundo dados da Kantar Ibope Media, publicados recentemente, 81% da população brasileira expandiu seu consumo de mídia desde o início da pandemia. E, ao mesmo tempo, pesquisadores indicam que houve uma explosão de notícias falsas sobre possíveis tratamentos da Covid-19 em meios digitais. Exemplos disso não faltam. Desde figuras oficiais promovendo remédios não comprovados contra a doença, como cloroquina ou injeções de desinfetante, até estruturas mais complexas.

Um estudo coordenado pela União Pró-Vacina, da Universidade de São Paulo (USP), mostrou que, conforme laboratórios anunciavam avanços no desenvolvimento da vacina contra o vírus, houve uma explosão no conteúdo falso na tentativa de demover as pessoas de adotarem os calendários de imunização. Segundo o levantamento da USP, os dois maiores grupos antivacina do País aumentaram em 383% o número de publicações entre maio e julho, sendo que mais de 30% desse conteúdo foi desenvolvido no exterior e apenas traduzido para o português.

Neste contexto, o jornalismo profissional sobre saúde adquiriu relevância entre os consumidores brasileiros. Inclusive no combate ativo à desinformação causada por essas páginas. “A desinformação é uma epidemia dentro da pandemia”, afirma Patrícia Carvalho, diretora do Bem Estar, plataforma de saúde da Globo. E, além de alertar ativamente o público sobre as notícias falsas com maior abrangência entre a audiência, o programa se especializa também na contextualização dos estudos legítimos realizados sobre a Covid-19. Essa característica vem do fato do programa abordar o tema saúde há quase uma década. O Bem Estar mantém, desde 2011, uma equipe de profissionais especializados em metodologias de estudos e realiza consultas com a área médica antes antes de levar um dado ao ar.

O Bem Estar, da Globo, mantém equipe especializada em metodologias de estudos e faz consultas com a área médica antes de levar um dado ao ar

Essa prática, além de boa para o telespectador, traz resultados comerciais. “Em momentos como o que vivemos, o cuidado das marcas em atrelar suas mensagens a histórias que zelam pela verdade e que levam aos consumidores informações acuradas é ainda mais essencial”, afirma Eduardo Salvador, diretor de negócios para os setores de serviços e telecomunicações da Globo.

Nascida no ambiente digital, a UZMK Conteúdo conta com essa especialização para trazer a mesma cadeia de valor ao segmento. Responsável pelo canal do YouTube do médico Drauzio Varella, a produtora também vê como parte de sua obrigação diária desmentir notícias falsas sobre saúde. Nessa seara há, inclusive, uma parceria com a agência de checagem Lupa, envolvendo alertas sobre o crescimento de certos temas com conteúdo falso sobre saúde na internet. A expertise trouxe, inclusive, uma nova forma de negócio para a produtora, que passou a fazer a comunicação audiovisual de indústrias farmacêuticas. Por motivos de compliance, entretanto, os clientes desse setor não podem ser divulgados, explica Jefferson Gorgulho Peixoto, diretor executivo da UZMK.

“Em momentos como o que vivemos, o cuidado das marcas em atrelar suas mensagens e histórias que zelam pela verdade é ainda mais essencial” – Eduardo Salvador

Após o início da pandemia, marcas que, usualmente, não abordavam a pauta saúde, entraram no tema. Foi assim com o Itaú Unibanco. Em abril, o banco anunciou a maior doação privada da história do Brasil, atingindo R$ 1 bilhão de reais para a iniciativa Todos Pela Saúde, que promove ações de combate ao vírus. Parte desse montante foi destinada a ações com as comunidades brasileiras — como a distribuição de máscaras e testes para detecção da doença e até o aporte recente, junto com a Fapesp, de RS$ 82,5 milhões para o desenvolvimento dos ensaios clínicos da vacina produzida pelo Instituto Butantan.

Esse projeto se vale da comunicação de massa com o objetivo de conscientizar a população sobre práticas para barrar o coronavírus. Com a UZMK, o Todos Pela Saúde produz parte do seu conteúdo em pílulas educativas, nos quais promove o uso de máscara, distanciamento social e lavagem correta das mãos. Peixoto chama a atenção, no entanto, para o perigo de estafa mental do público para temas relacionados ao coronavírus. “A pandemia gerou curiosidade e pânico no começo. Por outro lado, gera uma reação. Neste momento, precisamos saber dosar. Estamos no movimento interno de dar uma arejada e falar sobre o futuro pós-pandemia, também” diz.

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